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Gazetaweb

17/01/2021 às 08:07

Profissionais do sexo da Praça Montepio enfrentam pandemia para sobreviver

Mulheres retratam que precisam continuar trabalhando durante a pandemia para ter alguma renda 

(Créditos de imagem: Ailton Cruz)

O palco é mais apropriado para o amor do que a vida do homem. Pois, para o palco, o amor é sempre matéria de comédias e de vez em quando de tragédias, mas na vida causa muitos danos; às vezes como uma sereia, às vezes como uma fúria". A narrativa, descrita no livro a Assustadora História do Sexo, coincide com a rotina na Praça Montepio dos Artistas, localizada no Centro de Maceió. À luz do dia, no palco de uma das praças mais conhecidas da capital alagoana, as profissionais do sexo se reúnem para mais um turno de trabalho e, mesmo diante da pandemia, se reinventam para não perder o pão de cada dia. Entre um cliente e outro, também precisam lidar com o preconceito.

Mara Madalenas, como prefere ser identificada, tem 27 anos e trabalha como profissional do sexo há 10. "Não lembro bem como iniciei na profissão, mas, lembro que precisava trabalhar. Já tinha quatro anos nos bares do mercado quando uma colega me convidou para ir até à Praça. Fui, gostei e não sai mais".

Apesar de só ter 27 anos, Mara retrata que, além dos olhares de repúdio da sociedade, precisou lidar com a rejeição da família. "Quando minha família soube que eu estava na prostituição, minha mãe deu meu filho, com pouco mais de 1 ano, para outra família. Perdi o contato com meus familiares e, como minha família me virou as costas até hoje, minha família é o casal que cria meu filho. Os únicos que eu permito que meu filho chame de pai e mãe".

Com a voz embargada, mesmo com um sorriso no rosto e otimista por gostar e lutar pela regularização da profissão, Mara, que carrega na pele uma tatuagem de 'puta ativista', retrata momentos difíceis diante da pandemia e do cotidiano.

"A gente que vive o dia a dia na Montepio, a gente ver mulheres da sociedade que nos olha, cospe e tem nojo da gente. A gente tem uma fama de mulheres que têm doenças, as aidéticas, DSTs. A Praça Montepio tem essa fama de ter as mulheres podres, do último degrau e, não sabe a sociedade, que a gente é acompanhada por especialistas, que cuidam da nossa saúde física e mental. Fazemos testes rápidos, com o consultório na rua, e, graças a Deus, entre nós, nenhuma nunca testou positivo".

Mara conta que, devido à pandemia, o programa está em 'promoção' e custa R$ 50, sendo R$ 20 do quarto e R$ 30 para ela. "A gente precisa. No começo da pandemia, os clientes pararam de nos procurar e tivemos que baixar o preço. Antes, era R$ 70, sendo R$ 50 meus e R$ 20 do quarto", diz, acrescentando que existe preconceito em diversas áreas, mas, com o trabalho sexual, o preconceito é ainda maior.

Questionada sobre a quantidade de programas que já fez por dia, Mara foi taxativa: "12. Meu recorde. Sobre a intimidade com os clientes, ela diz que não faz tudo por dinheiro. "Não faço sexo oral sem camisinha. Não beijo na boca. Não deixo colocar a boca em meus seios. Não faço anal, nem faço programa sem camisinha".
A profissional do sexo diz, ainda, que acompanha pesquisas recentes que mostram que "80% das mulheres com HIV/Aids são casadas e donas de casa, sendo os parceiros que transmitem para elas, que transmitem nas ruas" e acrescenta que "já vi mulheres da sociedade olhando e cuspindo nojo da gente".

Mesmo não sendo conhecida pela grande sociedade, as profissionais do sexo contam com o auxílio da Associação das Profissionais do Sexo Madalenas (APSM), que oferta assistência social e orientações para garantir dignidade para as mulheres que atendem na Montepio dos Artistas. Cristiana Garcia dos Santos, presidente da associação, é conhecida como China, tem 41 anos, é natural de João Pessoa e veio para Alagoas aos 15 anos, acompanhada do ex-marido.

"Aos 11 anos, quando perdi meus pais, fiquei sozinha e tive que me virar. A primeira droga que usei foi a cola. Nesse período fui fui violentada. Foi um passado muito sofrido. Até que, aos 13 anos, conheci meu ex-marido e pai dos meus filhos. Aos 14 anos, ele me trouxe para Alagoas. Aos 17 anos, quando meu casamento acabou, voltei para as ruas para viver dos programas. Eu fiquei só e entrei na vida da prostituição para criar meus filhos".

Ela diz que trabalha há 4 anos na Montepio e, com a pandemia, aceita o dinheiro que "vier" para pagar aluguel, comprar comida e sustentar os 5 filhos. "Eu não poderia deixar de trabalhar porque se eu não trabalhasse, eu iria passar necessidades. Foi bem difícil no começo. Sofri muito. Cliente que não vinha atrás, tinha medo, recuava. Olhe, eu vou falar a realidade, depende do cliente. Às vezes tem cliente que quer pagar R$ 20 meu e R$ 20 do quarto, no total de R$ 40. E, se não pegar esse dinheiro, não tenho nem como voltar para casa".

Moradora do bairro da Forene, Cristiana diz que vai levando a vida fazendo os programas. "Eu passei por uma situação dolorosa logo no início, uma mulher foi desaforada, sendo preconceituosa. Eu olhei para ela e fiquei pensando: 'Meu Deus, ela não sabe o que estou passando, não sabe o que está faltando. Ela não sabe que eu não tenho renda e que preciso desse trabalho para me sustentar'. Eu não quero roubar, não quero matar, quero ser honesta, e é por isso que eu vendo meu corpo, prefiro ser garota de programa. Não estou fazendo nada de errado, estou ganhando o mês".

Os filhos de China sabem da profissão da mãe e, segundo o relato dela, apoiam. "Meus filhos me respeitam muito. Para você ter uma ideia, meu filho até se separou porque a mulher disse que eu era prostituta. Meu filho diz que sou a rainha dele e que não vai permitir que me destratem".

Mara e Cristiana, além de compartilharem histórias de vida difíceis, fundaram, com o apoio de outras mulheres e do Movimento da População em situação de Rua (MNPR) no Estado, 'As Madalenas' e, atualmente, oferecem, de forma gratuita, orientações junto a advogados, a profissionais da saúde e, também, com assistência social para que as trabalhadoras do sexo tenham uma vida um pouco "mais digna" diante dos empecilhos da lida, da vida.
 

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